Mesmo após tantos meses sem escrever e mantendo um número de acessos relevante, hoje, sexta-feira santa e pessach, resolvi pegar uma tarde livre para escrever sobre mais uma dica que adaptei na minha bike de ciclotur. Eu estava certo dia estacionado – de carro – em um posto, e resolvi ir até a loja de conveniência para comprar uma Coca Cola. Ao chegar ao caixa para pagar, um daqueles stands para mostra de produtos me chamou a atenção.

Tratava-se de um daqueles lixinhos para carros, de colocar no câmbio para jogar papéis, embalagens, etc. Mas este era resistente o suficiente para aguentar o tranco em uma viagem de bike, em muito mais que uma.

Não pensei duas vezes e comprei o lixinho. Fiz uma espécie de nó básico passando o lixinho por dentro de sua própria alça, e ficou perfeito atrás da garupa, entre os alforjes traseiros, abaixo do refletor. Testei na última viagem que fiz pela Serra da Cantareira e está aprovado. Couberam todos os papéis de coisas que comi, e ainda coube uma bituqueira de garrafa PET onde eu colocava os meus cigarros. Vejam como ficou:

Por possuir paralamas, o lixo não toca a roda, e o material relativamente espesso do lixinho não permite que ele se curve e entre por trás do paralamas na roda. Segurança é fundamental!

Vejam bem: isto não é um apelo Eco Chato, é só uma solução que encontrei e que funcionou muito bem para mim, mas não deixem de sempre zelar pelos espaços pelos quais passam, sem deixar lixo. Às vezes encontro muito lixo nos lugares que passo em cicloviagens, e acho isso muito ruim, desanimador. Vamos cuidar do que é nosso, né?

Vejam nas fotos como ficou meu lixo improvisado e comentem! Aí vai mais uma:

 

Abraços e saudades de vocês! (Se alguém se interessar, amanhã – sábado – estou indo para Paranapiacaba para voltar no final da tarde. 7 da manhã na Pça do Ciclista na Paulista; e no sábado que vem, vou pra Santos levar um pessoal que nunca foi, 7h30 no Habibs Jabaquara)

 

Abraços e bom pedal a todos!

Antes de mais nada, quero avisar que este texto foi escrito por mim para o site VilaMundo. Eu copiei ele aqui no Pedivelha na íntegra. Não é um texto sobre bike ou viagens, mas uma das fontes que entrevistei me disse que o caminho das bicicletas é o caminho das águas, que é o caminho mais fácil, sempre. As pernas sentem as águas e você pedala sempre no mesmo sentido que os rios correm por intuição. É intrínseco no ser humano. Outra delas me disse que as ciclovias são planejadas no curso dos rios devido à altimetria mais fácil de pedalar. Logo, acredito que este texto é de suma importância para qualquer ciclista. Tenham uma boa e longa leitura e, por favor, se possível, comentem e espalhem. Atenciosamente, Gustavo Angimahtz.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Este é um trecho do Rio Pinheiros antes de ser retificado, em dezembro de 1930. Hoje, os meandros do curso d'água não existem mais, e o que restou agora corre para o lado oposto.

São Paulo remete ao caos. Por trás desta realidade urbana, existe uma natureza, doente, mas viva. Ou melhor, por baixo desta realidade, já que a metrópole é uma verdadeira laje construída sobre uma imensa bacia hidrográfica. Em 1554, São Paulo era de Piratininga, antigo nome do rio Tamanduateí. Foi na junção deste com o Anhangabaú que foi fundada, e sua urbanização aconteceu de forma desenfreada. Os rios Tietê e Pinheiros eram as marcas dos limites da cidade, que precisava de energia e ocupação. O bairro de Pinheiros, rota para tropeiros que bebiam água nas bicas do rio Verde antes de subir o espigão da Paulista, não possuía infraestrutura, e as cheias castigavam a região, que fica em uma parte mais baixa da cidade. São Paulo é, na verdade, uma riquíssima bacia hidrográfica.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Arquibancadas eram construídas às margens do Pinheiros para os eventos esportivos aquáticos entre os clubes da cidade.

“Ninguém pensa que São Paulo está lotada de rios, porque rio não morre. Eles ficam doentes, arrebentados, totalmente enterrados. Enterrados vivos”, dramatiza Luiz Campos Jr., que organiza expedições com o grupo Rios e Ruas pela cidade. “Não tem jeito de estar em qualquer lugar da área central da metrópole sem estar a menos de 200 metros de um curso d’água. As pessoas dizem que estou louco, mas ainda não me desmentiram”, completa o especialista.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Mapa hidrográfico em que a prefeitura de São Paulo se baseia para desempanhar sua gestão.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Este mapa mostra apenas um recorte do mapa ao lado, masjá é possível ver que, na verdade, existem muito mais rios que o governo imagina.

 

Laje sobre os rios

As cidades são construídas de acordo com os cursos d’água que possuem. Mesmo as tribos indígenas já se instalavam na convergência entre um canal mais caudaloso, para navegação e comunicação com outras tribos; e um rio mais manso, onde lavavam e banhavam-se. Remos, inclusive, eram personalizados para cada tribo, que talhava artesanalmente símbolos de seus povos. A região de Pinheiros passou por um processo de urbanização totalmente fundado no curso e na cheia do rio Pinheiros. Além do rio, limitando ao sul, Pinheiros é delimitada ao norte pelo espigão do Caaguaçú, um grande divisor de águas (extensa e estreita faixa alta de terra de onde brota água para os dois lados). Lá nascem milhares de minas d’água que correm em direção aos rios Pinheiros e Tietê, e é onde estão construídas as ruas Domingos de Moraes, Bernardino de Campos, Paulista, Dr. Arnaldo (antiga avenida Municipal), Afonso Bovero e Cerro Corá. Assim que acaba o divisor, o Tietê e o Pinheiros se encontram e rumam juntos em direção ao rio Paraná.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

No detalhe deste mapa de 1924 é possível ver a dinâmica das águas de São Paulo: o espigão se estende na principal rua sentido leste-oeste, passando pelos bairros do Paraíso, Villa America (onde hoje é o Jardins) e Villa Cerqueira César (onde hoje é Cerqueira César). Os rios nascem próximos à essa rua e correm para os dois lados. O lado sul deságua no rio Pinheiros e o lado norte deságua no Tietê. Ambos os rios formados se encontram no final do divisor de águas.

“Nada mais importante na história da humanidade que os rios”, emociona-se o professor Alexandre Delijaikov, que coordena o Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU – USP). “Nós conseguimos modular tempo e espaço por conta das cheias e vazantes”, continua o docente, “nós percebemos o território por conta da água. Todas as cidades do planeta na história da humanidade foram fundadas por conta dos cursos d’água”, finaliza.

 

O homem que inverteu o curso do Rio Pinheiros

Na década de 20, o engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings, que mais tarde batizaria uma represa aonde nasce o rio Pinheiros, foi chamado para ajudar na urbanização das várzeas do deste mesmo rio. No entanto, para aumentar a cidade, ele precisava pensar na energia que seria necessária gerar para isso.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Nesta imagem, o Rio Pinheiros na altura da pone Cidade Jardim, na década de 30.

Billings resolveu aproveitar a abundância de água da região e decidiu fazer um projeto ousado para a época. Fez uma barragem que manteria a água que nascia do Pinheiros na Serra do Mar, mais tarde nomeada Represa Billings, e construiu duas usinas elevatórias no rio Pinheiros e uma comporta no rio Tietê. Dessa forma, ao fechar a comporta e ligar as usinas, ele conseguiria fazer com que a água do Tietê entrasse no Pinheiros e ajudasse a  correr para o sentido oposto, ultrapassasse a represa e despencasse por canos a 800 metros de altura, do topo da Serra do Mar, para ser aproveitada em uma terceira usina, em Cubatão, que gerava energia hidrelétrica. O projeto foi um sucesso, e assim as empresas que geriam a energia e a urbanização de São Paulo, a City e a Light, abasteciam Cubatão, São Paulo e Santos com folga. Após alguns anos, uma segunda usina, subterrânea, foi construída e a capacidade aumentou muito, trazendo reconhecimento mundial para o engenheiro. Billings chegou a palestrar sobre sua conquista em todo o mundo.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Na década de 20 o Pinheiros era usado como piscina natural para lazer e competições de remo.

 

E com o advento do capitalismo…

…agora era preciso definir a área a ser estruturada e dividida em lotes. Para isso, ficou decidido, no final na década de 20, que a cheia do rio Pinheiros determinaria a área a ser urbanizada. Em 1929, especulações não confirmadas defenderam que as comportas do Tietê fossem fechadas, as da Billings abertas e as usinas desligadas para que o rio alagasse mais, a água ocupasse uma área maior. Assim, as empresas teriam um negócio mais lucrativo. Fora essas obras, o Tietê chegou a perder 17 quilômetros de extensão com sua retificação e as águas do Pinheiros agora corriam para o lado oposto.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Também na altura da ponte Cidade Jardim, esta é a foto da cheia de 1929. Praticamente o "crack" das águas de São Paulo. A City e a Light eram agora donas de toda a várzea do Pinheiros.

Hoje em dia, devido à poluição dos rios de São Paulo, as usinas funcionam com capacidade muito reduzida, pois a água não flui com a mesma velocidade que antes. “A poluição é problema habitacional, social, urbanístico. O problema ambiental é a conseqüência”, explica Luiz Campos Jr.“O foco é que está errado, assim como o problema das enchentes é tratado como um problema técnico de engenharia, mas vai muito além disso”, completa.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Uma das regatas que eram realizadas frequentemente entre os clubes da região, como o Clube Pinheiros e o Clube Esperia.

O professor Delijaikov concorda e complementa: “O problema, quando se fala de infraestrutura regional, não adianta falar do rio maior. Para despoluir o Tietê, tem que despoluir o afluente do rio Tietê, e o afluente deste rio menor. Se não controlar essa unidade hidrográfica de gerenciamento, sistemicamente falando, de maneira capilar, não é possível resolver nada”, afirma.

 

Todas as águas de Pinheiros – ou algumas delas

São três os rios mais expressivos da região de Pinheiros, e todos nascem no espigão entre as ruas Cerro Corá e Paulista e já estão canalizados. A canalização é outro fator que aumenta as enchentes. Faz parte do ciclo de um rio o período de cheia e de vazante, é uma forma de respiração do rio, que leva sedimentos e está constantemente modificando a paisagem. Ao canalizar um curso d’água, a água deixa de carregar galhos, sedimentos, deixa de fazer curvas e meandros e acelera, contribuindo com o aumento da geração de energia e com as inundações. Mas isso traz problemas, pois com uma velocidade maior, os gargalos naturais da cidade são obstáculos fáceis de serem transpostos com uma chuva forte.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

A avenida Sumaré e a Paulo VI,vale do rio Verde, antes e depois da urbanização dominar a Pinheiros.

O menor dos córregos, Belini, nasce pouco acima da praça Panamericana, no Alto de Pinheiros. É um rio relativamente curto, que corta por Alto de Pinheiros, avenida Pedroso de Moraes e passa rente ao Parque Villa-Lobos para então desaguar no Pinheiros. Totalmente encoberto, tudo o que se vê dele é uma boca de cano no rio Pinheiros. Observando um pouco mais à direita do mapa, o rio das Corujas, mais caudaloso, nasce na travessa Raul Seixas, na Vila Madalena, em uma região com muitas minas d’água. Ainda pode ser percebido na praça de mesmo nome, onde corre a céu aberto por um curto espaço para logo correr por galerias e canos direto para o rio Pinheiros. “Do lado da escadaria da Raul Seixas tem um escorredor de água que não para. É ali a nascente. O vigia da rua nunca viu parar de correr água ali, pode perguntar”, afirma Luiz Campos Jr.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Em 1957, o rio Pinheiros já retificado na altura do Jockey Clube e do Clube A Hebraica, onde desagua um dos braços do rio Verde.

Cerca de 90% dos rios da cidade estão sob o asfalto, portanto o Corujas é um caso raro. “Muita gente sabe que ele existe porque tem a avenida das Corujas e ele está aberto na praça. As pessoas vêem e é possível se integrar a ele de alguma forma”, conta Luiz.

 

O rio Verde

Mais à direita no mapa, o maior rio da região, o Verde, nasce em múltiplos focos de nascentes, numa formação geológica chamada anfiteatro – pois parece com a arquibancada de um anfiteatro, alta e em curva -, em milhares de pontos diferentes do bairro. As minas d’água do Verde formam dois córregos que se juntam na Rebouças, que chamaremos de braço leste e braço oeste.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Este é o Rio Verde, no início do século XX, atravessando a atual Cardeal Arcoverde na região onde acontece a feira de antiguidades da praça Benedito Calixto. Na imagem é possível ver a Igreja que ainda existe de frente para a praça.

O braço oeste do Verde nasce principalmente na rua sem saída Beatriz Galvão, que atravessa a Heitor Penteado e no primeiro quarteirão da rua Oscar Freire, quase na esquina com o início da avenida Dr. Arnaldo. Ele passa pela rua Abegoárias, Medeiros de Albuquerque, Beco do Batman, uma viela entre as ruas Harmonia e Girassol e pelo Beco do Aprendiz, de onde segue em linha reta pela avenida Paes Leme até o rio Pinheiros. O outro braço nasce parte dentro do Grêmio da Faculdade de Medicina da USP, parte na rua Gabriel Monteiro da Silva, e desce próximo ao curso da avenida Rebouças até desaguar também no Pinheiros. Antigamente, os dois braços se encontravam na altura da rua dos Pinheiros. É próximo à antiga junção dos braços do Verde que se pode perceber a falha de engenharia no projeto de canalização do córrego. Ao canalizá-lo, foi decidido separar os dois braços, e o oeste faz uma curva de quase 90 graus na altura da Rua dos Pinheiros, desviando o braço direto para o rio Pinheiros pelo Largo da Batata. O outro braço sofreu apenas pequenas alterações e continua seu curso por entre os canos até desaguar próximo à sua foz original, por baixo dos clubes A Hebraica e Pinheiros.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Este mapa de 2010 mostra o curso original dos braços do rio Verde. Tente achar, de acordo com as coordenadas oferecidas no texto. Eles estão traçados em vermelho. Atualmente, o braço oeste foi desviado e segue sem juntar com o braço leste pela rua Paes Leme.

Se notarmos, a região de alagamento mais tensa do bairro é exatamente onde os canos fazem a curva acentuada. “Fizeram um túnel na gestão da Marta Suplicy onde, na primeira semana de inauguração, morreu uma senhora afogada. Já imaginou a água fazendo um ângulo reto? Descendo os morros da Vila Madalena, a água não tá nem aí pra nada. Se tem um ponto de estrangulamento, dá enchente”, explica Luiz Campos Jr. Realmente, é fácil assimilar que trechos onde se reduz drasticamente a velocidade da água fatalmente se tornam estatística nas prefeituras e subprefeituras de toda São Paulo.

Imagem: escritório Aedas

Neste mapa, integrante do livro de apresentação do projeto, pode-se vislumbrar o projeto do Parque Linear Córrego Verde do escritório Aedas.

Curiosamente, o rio Verde esconde muitas histórias, e por seu tamanho mais avantajado somado às vielas e becos pelos quais passa, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, juntamente com o Aprendiz e o escritório Aedas Arquitetura fizeram um projeto que pode revolucionar a paisagem do bairro – e para melhor. O projeto é chamado Parque Linear Córrego Verde, e consiste em três projetos: uma reforma das galerias do córrego, a implementação de um reservatório subterrâneo para auxiliar na contenção de cheias e um parque com equipamentos para os cidadãos praticarem esportes, se locomoverem e ainda conhecerem a história do rio Verde.

Imagem: escritório Aedas

Trecho do projeto do Parque Linear Córrego Verde que mostra o local onde hoje é o Beco do Aprendiz.

 

Parque Linear Córrego Verde

O projeto arquitetônico é encabeçado pela profissional Anna Dietzsch, que entrou nessa por acaso. Tudo começou com um convite do jornalista Gilberto Dimenstein para que Anna fizesse um projeto para abrir uma porta nos fundos de uma das casas da ONG Aprendiz, que daria para o Beco do Aprendiz, conhecido mundialmente pelos grafites ao longo de toda sua extensão. Anna fez algumas visitas ao local e descobriu que não poderia abrir a passagem porque o beco se trata de uma viela sanitária, e é proibido abrir a viela para a rua. Desta descoberta, outras ideias surgiram, e começaram a pensar em ocupar de forma positiva o beco que até então encontrava-se abandonado.

Imagem: escritório Aedas

Nesta outra imagem, o projeto retrata o local onde hoje é o Beco do Batman, conhecido mundialmente por seus grafites.

Nesta fase, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, que tem como meta a inauguração de 100 parques até abril de 2012, viu neste projeto a possibilidade de construir a existência do rio Verde com uma ocupação que melhoraria a infra-estrutura urbana: era o início do projeto do Parque Linear Córrego Verde.  A praça Victor Civita, de autoria da arquiteta, também faz parte do plano dos 100 parques da secretaria. Para Luiz Campos Jr., “tudo o que vai em direção ao rio, que chama a atenção para o rio, é um avanço. O parque é, na verdade, um memorial, mas se só nas ruas colocassem umas placas ‘aqui passa o rio tal’ para mim já era legal”, defende o ativista. “O que deve mudar é a cabeça das pessoas, não acho que essa realidade vai mudar com grandes projetos de despoluição do Tietê”, complementa.

Imagem: arquivo Rios e Ruas

Neste mapa é possível ver por onde o rio Verde corre atualmente. O grupo de Luiz Campos Jr. fez uma incursão em grupo e desvendou todo o curso de cada um dos braços que hoje caminham separados por baixo da cidade.

Com a ideia na cabeça, a ONG se mobilizou com o escritório de Anna, o Aedas, e todos os equipamentos interessados da região se reuniram para discutir como poderia ser esse tal parque. “Eu não tinha noção de que a gente vivia sobre água. A gente só vê a água quando ela vem agredir”, conta a arquiteta Anna Dietzsch. A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente possuía em seu caixa um dinheiro oriundo de termos de compensação ambiental que era destinado justamente a construir seus parques, e isso era outro ponto a favor para Anna. “Era um dinheiro resultante da construção do metrô. Quando tem uma obra que derruba árvore, por exemplo, essa empresa tem que pagar para a cidade de volta”, explica a arquiteta. O Parque Linear Córrego Verde faz o traçado do braço oeste do Rio Verde. Na rua sem saída chamada Beatriz Galvão ficou decidido o marco zero do parque, pois é onde foram identificadas várias nascentes. O projeto vai acompanhando a rua Abegoárias, onde pretende instalar equipamentos para passeio, ginástica, ciclismo e caminhadas, inclusive uma pista de skate. Seguindo pela rua Medeiros de Albuquerque, um piso drenante com biotrincheiras – canteiros muito drenantes com plantas flexíveis para sobreviver em charcos – acompanha a ciclovia até ocupar todo o Beco do Batman.

Imagem: escritório Aedas

A nascente do braço oeste do rio Verde é retratada com otimismo na perspectiva do projeto do escritório Aedas. Uma cachoeira feita com as águas do próprio rio serão o "marco zero" do parque.

Enquanto a ciclovia continua, no beco será construído um palco para shows e uma galeria a céu aberto para grafites, mantendo a fama do lugar. Na viela entre a Harmonia e a Girassol uma ponte pretende abrir o rio por um quarteirão para que ele seja percebido, com banners com poesias sobre a água pelas paredes. Por fim, o parque encampa o Beco do Aprendiz, com jogos de chão como amarelinha, brinquedos de muro e uma área com plantas nativas da região. “A ideia é criar um grande eixo de pedestre e bicicletas, um grande calçadão. É um grande plano drenante que utiliza métodos passivos de drenagem que complementem esses métodos tradicionais de grandes obras de infraestrutura que mostrarão para a população que isso pode ser feito em grande escala e que pode acabar com muitos problemas”, defende Anna Dietzsch. “O parque em si é uma área pequena, mas se conseguíssemos que 80% da bacia tivesse esse tipo de impermeabilidade, conseguiríamos diminuir a enchente em 30%.

 

Nem tudo são flores e rios

A construção do parque está atualmente embargada pelos próprios moradores do Jardim das Bandeiras, a região da praça do Maracatu próxima da rua Abegoárias. Como o projeto requer a instalação de um reservatório subterrâneo abaixo de uma das praças que será reformada, uma vistoria contratada por um perito em drenagem foi argumento suficiente para que o projeto fosse parado na Justiça.

Imagem: escritório Aedas

Esta praça é o motivo do embargo. Anna diz que os moradores não pensam que após o piscinão, uma nova praça será construída e as enchentes serão drasticamente reduzidas

O piscinão é um instrumento para aliviar as enchentes, e Anna garante que é o melhor a ser feito. “É uma bacia muito estreita e profunda. As enchentes são rápidas, as chamadas enchentes relâmpago. Acontecem porque a água  aumenta em volume muito rápido. O reservatório absorve parte dessa água e solta aos poucos”, defende a arquiteta. “A gente não pode ser responsável por fazer tudo isso e correr o risco de ser inundado. Por isso que a população tem que concordar com o piscinão. A gente precisa dessa infraestrutura”, completa. Anna acredita que o grande problema foi que o piscinão foi planejado antes, sem um projeto paisagístico, e por isso assustou os moradores. A comunidade se defende alegando que se existisse uma galeria maior do que a que existe atualmente, não seria necessário um piscinão. O problema é que essa galeria precisaria ser um verdadeiro túnel, respondeu a arquiteta, que vem da Paulista até a Vila Madalena. “É uma obra mais cara, ideal, não factível. A maior razão para o projeto ficar parado foi esse embargo”, argumenta.

Imagem: escritório Aedas

Na praça em frente a do piscinão, onde há uma banca de jornal, uma pista para os jovens andarem de skate e patins. As árvores sempre permanecem.

Até mesmo a Secretaria do Verde não gosta do piscinão, pois acha que tem que fazer as coisas de forma menos agressiva, mas nesse caso, uma consultoria de drenagem fez uma análise e um relatório constatando a necessidade da obra com um cálculo de retorno de 100 anos. “Significa que a probabilidade de dar uma enchente segundo o ciclo de chuvas analisado nos últimos 50 anos, é de 100 anos”, explica Anna. “Esse negócio de falar que a chuva fica mais forte bobagem. O que acontece é que a cidade se torna mais impermeável. É só uma medida para dar condições que essa infraestrutura seja planejada”, justifica mais uma vez.

Imagem: escritório Aedas

Além da beleza exterior do projeto, toda a infraestrutura é pensada para as chuvas de verão. Biotrincheiras (canteiros com ótima drenagem e plantas anfíbias), canaletas e piso drenante são técnicas utilizadas em toda a extensão do parque.

 

E o chove não molha?

Agora o próximo passo é marcar uma apresentação do projeto para os possíveis clientes  – a iniciativa privada – e também para os moradores descontentes, para tentar fazê-los acreditar nos benefícios do projeto. “As coisas tem uma morosidade no poder público. A gente tem que ter interferência de várias secretarias e entidades. O projeto base está todo feito”, alega Anna. Mesmo com boas expectativas, uma próxima data para dar andamento ainda não existe. Para o professor Alexandre Delijaikov, “não adianta ter tudo na cabeça se não houver uma construção coletiva no âmbito das mentalidades e da visão de mundo, e do que seria a idéia das pessoas poderem viver juntas, com confiança e convivência”. Basicamente, a esperança de uma sociedade que possa voltar a usar os rios para o lazer e o transporte ainda é distante, mas ganha força a cada dia. Para que a sociedade se dê conta da importância dos rios que por ela passam, é preciso muito mais que um projeto de despoluição. O professor Delijaikov defende que a mudança deve acontecer na mentalidade das pessoas. Mas como mudar a mentalidade de toda uma sociedade? “Esclarecendo. Construindo um quadro, aguçando o olhar crítico em cada cidadão, através do diálogo de fato, confronto de idéias e debates, para então chegar a uma conclusão”, responde o professor. “Ao longo do século 20, vários educadores defendiam a pedagogia da autonomia, como o Aloísio Teixeira e o Paulo Freire. Falavam que era importante ter filosofia e arte em todos os anos do ensino fundamental. O que quer dizer isso? É tomada de consciência. Essas coisas são muito importantes”, conclui.

 

Fontes consultadas para esta reportagem: Prof. Alexandre Delijaikov – Professor e Coordenador do Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU – USP). Luiz Campos Jr. e José Bueno – Fundadores do Projeto Rios e Ruas Anna Dieztsch – Arquiteta responsável pelo projeto do Parque Linear sobre o Rio Verde

Muita gente já comentou e me mandou email perguntando sobre a rota ou pedindo para que eu avisasse quando ela aconteceria. Bom, o evento oficial contará com a participação de mais de 800 ciclistas, então é superseguro para quem nunca foi. Fiquem atentos aos horáiros de saída, que são super cedo! Nos vemos lá, se me encontrarem!

 

OBS: eu não sou organizador do evento, estou apenas divulgando, mas é seguro, podem comparecer. Quem quiser saber mais, pode entrar no link abaixo e confirmar presença no facebook!

http://www.facebook.com/events/257202034327975/

 

DETALHES:

Minha amiga Renata Winkler está encabeçando um projeto muito massa e eu estou fazendo minha parte ajudando a divulgar. O objetivo é mapear rotas de cicloturismo em todo o litoral brasileiro e criar uma plataforma digital para compartilhar com os interessados. A iniciativa é nobre e muito válida, e venceu o Festival de Idéias, ganhando 10 mil reais de crédito caso ela atinja o restante da diferença de arrecadação. O projeto será financiado por Crowdfunding no http://catarse.me/pt/projects/341-mapeamento-de-rotas-de-cicloturismo-no-brasil. Crowdfunding consiste em aproximar os interessados dos criadores de projetos inovadores eliminando os intermediários. Como diria Diego Reeberg, criador do Catarse, “a transformação é a mudança no comportamento, e não na tecnologia”. Então vamos ajudar a fazer um bom uso da tecnologia vigente e colaborar com esse projeto maravilhoso que tem muito a acrescentar. Para cada doação, uma recompensa diferente, então todos saem ganhando. Se não puder doar, ao menos colabore divulgando e fazendo prevalecer a paixão pela bicicleta e pelo cicloturismo. Obrigado e muitas saudades de todos e disso aqui. Se tudo der certo, voltarei a fazer as viagens em 2012!

Gustavo Angimahtz

Para dar início a essa nova fase do Pedivelha, indico um passeio do amigo e cicloturista mil vezes mais experiente que eu Gilberto Kyono! Além de pedalar muito, esse gajo nipônico ainda sabe explicar histórias e contextos dos lugares super interessantes! Vale muito a pena viajar com ele. E é para lá que eu vou no domingo para comemorar a nova fase do Pedivelha! O problema é que é uma viagem bem técnica. Vai encarar?

Evento criado pelo Gilberto Kyono (Tá Cedo!)

Nível de dificuldade: difícil

Distância: 50km de asfalto + 14km de terra para subir + 14 km de terra para descer. Total: 78km

Estilo: Mountain bike (Terra + asfalto)

Link para confirmação de presença no Facebook: 
http://www.facebook.com/event.php?eid=125103207579395

 

 

 

Hora
domingo, 7 de agosto · 07:00 - 20:00

Localização
Saída as 7:00 hs do Metrô Tucuruvi


Criado por

Mais informações
Você achar que pedala bem?
Acha que sua bike é boa?
Você vai pensar: Se não aguenta, por que veio?
Lembra do Burro no Schrek? Você vai lembrar dele.
Cãimbras… Suor… Dores… Nas pernas e nos braços e nas mãos; enfim, no corpo todo.
Subidas alucinantes! Se você acha que Megarange 34 x 22 sobe qualquer parede, vai ter que repensar seus conceitos.
As descidas vão testar seus freios e a foça de suas mãos. E também se os parafusos da sua bike estão apertados… Se sua suspensão está boa. Tudo isso na subida. Quando vier a descida, ai já f* mesmo e vc vai ter que gastar $$$ para levar sua bike na revisão.

E se o pneu furar, vc vai dar Graças a Deus por ter um pouco de tempo para descansar enquanto conserta.

E o pior: não estou exagerando.

Pedal hard: Pedra Grande em Atibaia. A pedra é grande e não tem nada lá em cima, só você, a pedra e o céu! (se quiser comer/beber alguma coisa, vai depender do que você estará disposto a carregar).

Asfalto, terra, poeira. E não é trilha.

Serão 50 KM de asfalto até o Bairro do Portão em Atibaia, depois mais 14 KM até a Pedra Grande. Detalhe: tem a Serra da Cantareira e a 2a Serra em Mairiporã. Que são brincadeira de criança perto dos 14 KM até a Pedra.

Qualquer coisa, pode parar e sentar na beira do caminho e ficar esperando a turma voltar… Não digam que não avisei.

Pode voltar pedalando para SP ou depois ir até Atibaia (15 km) e voltar de ônibus.

Da esquerda para a direita, estes foram os derradeiros companheiros das viagens que organizei! Agora, em busca de novos horizontes, agradeço ao Felipe Baenninger, ao Rubens, à Estela Cunha, ao Greg, ao Edu, ao Gabriel Cabral, ao João, à Gabriela Namie, ao Thiago Cesário, à Carol La Terza, ao Edu Matsuoka e ao Hiro por serem as melhores companhias em um aniversário que eu já sabia se tratar de uma despedida!

Sempre tive uma certa fixação por ordem e por ter o controle da situação. Confesso que ainda tenho. Porém, com o advento da bicicleta em minha vida, descobri em outras pessoas um sentimento que me é muito peculiar: a individualidade. Sou um cara que gosta de se virar, de fazer as coisas sozinho, etc, e quando decidi que queria companhia para viajar e fazer os meus roteiros, nos dias em que podia, nunca imaginei que daria tão certo.

Passei de cicloturista a cicloativista, algo que eu abominava, e fiz amigos muito especiais. Porém, continuava a martelar na minha cabeça a idéia de controlar o grupo do Pedivelha. Mesmo com essa idéia fixa, eu sabia que esse não era o certo a se fazer, que deve-se deixar rolar – ainda mais com relação à questão da bicicleta e da mobilidade urbana. Nos ciclodebates da Shimano na Casa das Rosas, descobri que mais gente conhecia o meu projeto, e cada vez mais gente me recebia de braços abertos e sorrisos por fazer as pessoas viajarem, provar que é possível fazer absolutamente tudo – mesmo voar, não é bmxers? – sobre duas rodas não motorizadas.

De umas semanas para cá vim matutando sobre o que é o tal Pedivelha? O Pedivelha sou eu. O Pedivelha é só um apelido que criei para o Gustavo Angimahtz por vergonha de me mostrar assim logo de início, sem saber onde pisava. E hoje tenho orgulho de dizer que o Pedivelha cumpriu sua função com êxito.

Me convidaram para alguns passeios no mês de julho, e eu não podia fazer porque tinha a viagem do Pedivelha para fazer. E muitas vezes eram as mesmas viagens que eu já fiz dezenas de vezes. Poxa, eu também quero conhecer novas rotas, mas sempre existe alguém que me pede para ir para Santos novamente, por exemplo. Neste último final de semana, fiz uma viagem secreta – não divulgada no Pedivelha – e completei a minha 12ª Descida pela Estrada de Manutenção da Dersa rumo à Santos. E no meio desta viagem, decidi também secretamente que o Pedivelha está entrando em novos tempos.

Eu nunca fui líder e todos que já viajaram comigo sabem que eu gosto mesmo é de pedalar, não de mandar. Assim, o Pedivelha acabou se tornando um paradigma na minha vida. Ele é de todos que o são e, ao mesmo tempo, é meu…isso não existe. Decidi então tomar uma decisão que já vou revelar.

Mas qual o motivo deste post tão cheio de explicações? Bom, falando bem diretamente, o objetivo é dizer que de hoje em diante, o Pedivelha não será mais apenas o Gustavo Angimahtz com suas idéias repetitivas de roteiros. Eu acho que este espaço está bem acessado para que o blog vire um serviço de utilidade pública. Assim, a partir a partir de agora postarei todos os passeios para os quais eu for convidado, independentemente de comparecer ou não. Isso quer dizer que é muito provável que você não me encontre em um determinado passeio, porque eu posso estar fazendo outro no mesmo dia! Eu quero tirar outras fotos! Eu quero ver novas paisagens! E toda a liberdade que a bicicleta vem me proporcionando está virando uma rotina chata e repetitiva!

Sem mais explicações, com tom sereno, alegria, saudades e muito otimismo, declaro que, a partir de agora, teremos um novo Pedivelha!

Espero de coração que todos entendam minha posição e que todos os comentários, críticas e sugestões, bem como esclarecimentos, são mais que bem vindos!

Amei muito representar alguma mudança na vida de vocês! Um imenso beijo de gratidão!

 

Gustavo Angimahtz

São mais de 200 fotos, enão coube num álbum só! Valeu gente! Até a próxima viagem!

Segue o link!

http://www.facebook.com/media/set/?set=a.257299960950459.85171.212078618805927

 

 

Gente, essa viagem proporcionou vídeos incríveis, como este  primeiro abaixo! Assistam e comentem!

Na terça-feira, dia 26, acontecerão dois eventos muito legais. Um é da Shimano, da série Ciclo-debates. será uma palestra sobre Cicloturismo com Guilherme Cavallari, um ciclista que já escreveu uns 15 livros sobre esportes de contato com a natureza, principalmente MTB e Cicloturismo e com o Presidente do clube Amigos da Bike.

Segue o link:

http://www.facebook.com/event.php?eid=122284594528660

 

O outro evento, de caráter filantrópico, é de um grande amigo, Thiago Ghilardi, que deu a volta ao mundo e dará uma palestra sobre sua viagem de 25 mil km passando por 28 países em 373 dias. toda a renda será destinada à ONG SOS FAUNA.

Segue o link do evento:

http://www.facebook.com/event.php?eid=191732990885600

 

Segue o link do site da palestra:

http://www.noitesdeaventura.com.br/pr.php

 

Vou tentar ir nos dois! Vamae?

 

Este texto foi redigido por mim para o site para o qual escrevo, o VilaMundo. Segue o link para a matéria original:

http://vilamundo.org.br/2011/07/david-byrne-traz-esperanca-para-a-mobilidade-urbana-em-sao-paulo/

Na noite desta terça-feira, 12 de julho, fui ao Sesc Pinheiros para assistir ao Fórum “Cidades, Bicicletas e o Futuro da Mobilidade”, idealizado pelo fundador da banda Talking Heads David Byrne. David sempre foi conhecido pelo seu lado artístico, mas decidiu começar a pedalar em sua cidade, Nova Iorque, para locomoção.

Imagem: Gustavo Angimahtz

Byrne fala em relações humanas

O prazer foi tanto, que Byrne passou a levar uma bicicleta nas turnês que fazia e, aos poucos, também foi se interessando pelos temas de mobilidade urbana. Começou a tomar nota das condições que as cidades pelas quais passava propiciavam aos ciclistas e à interação humana, e acabou lançando o livro “Diários de Bicicleta”, onde conta suas impressões como ciclista de lugares de todo o globo.

David veio ao Brasil para lançar seu livro traduzido para o português e discutir o tema “Cidades, Bicicletas e o Futuro da Mobilidade” na Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), no Rio de Janeiro e depois em algumas cidades. Após sua estadano país tupiniquim, parte para outras cidades da América Latina para compartilhar e discutir o tema em Santiago, Buenos Aires, Quito, entre outros lugares.

Imagem: Gustavo Angimahtz

Provando a teoria de Eduardo Vasconcellos, 20 bicicletas na porta da pizzaria ocupam menos espaço que um único carro

Após o fórum, acompanhei um grupo de cerca de vinte ciclistas para uma pizza nas proximidades do Sesc Pinheiros. Para a surpresa dos manobristas do Valet, ocupamos uma vaga inteira com bicicletas dispostas uma sobre a outra. Não fomos cobrados pelo estacionamento, mas a resposta, já ensaiada, seria: “é claro que eu pago, mas vamos dividir o valor por vinte.”

O fórum

Ao avistar a porta do Sesc, paraciclos prateados aguardavam ansiosos pela chegada das centenas de ciclistas, que fizeram questão de estacionar com uma hora de antecedência. Panfletos agradecendo a vinda sobre duas rodas eram entregues aos ciclistas por voluntários do Ciclocidade, uma associação de ciclistas urbanos de São Paulo sem fins lucrativos que promove debates e busca soluções de mobilidade urbana para São Paulo.

Imagem: Gustavo Angimahtz

Funcionários da Shimano rumo ao fórum. A multinacional detém 80% do mercado mundial de componentes de bicicletas.

Além dos ciclistas e curiosos, estavam presentes personalidades como Eduardo Jorge – secretário do verde e do meio ambiente de São Paulo -, Renata Falzoni – ciclista apresentadora da ESPN – e o cantor e compositor Tom Zé – responsável pela introdução da versão em português do livro “Diários de Bicicleta”.

Com um pouco de atraso, a mesa de mediação convidou ao palco, nesta ordem: David Byrne, músico e autor do livro em questão; Arturo Alcorta, colunista do jornal “O Estado de São Paulo” e ciclista proprietário de mais de 40 bicicletas; Marcelo Branco, secretário de transportes de São Paulo, que entrou sem muitos aplausos representando também a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET); e Eduardo Vasconcellos, professor e doutor em engenharia de transportes e consultor da Associação Nacional de Transportes Públicos.

Imagem: Gustavo Angimahtz

Da esquerda para a direita, Vasconcellos, Branco, Alcorta e Byrne.

Durante o debate, cada um dos convidados deu uma curta palestra sobre desenvolvimento urbano e mobilidade para que, depois, os convidados fizessem perguntas e, por fim, David Byrne fechasse o fórum com seu parecer final sobre a cidade de São Paulo. Perguntado sobre qual nota daria para a cidade, levando em consideração a nota 10 para Copenhague e 0 para Hong Kong, Byrne escapou da pergunta ao responder que Hong Kong não é uma cidade, mas uma máquina projetada para os negócios, e que nem se deve comparar São Paulo a isso. Mesmo favorecendo a paulicéia, a plateia ficou sem saber a resposta pontualmente.

O que defende Byrne?

Em apresentação da banda Talking Heads, que fundou e inspirou o nome do grupo Radiohead.

Sempre de bom humor, iniciou seu ponto de vista exibindo imagens de projeções futurísticas realizadas antigamente por pintores e arquitetos que, equivocadamente, tentaram expressar como seriam as cidades nos dias de hoje. Colocou a culpa pelas imagens cheias de edifícios altos e pouca interação humana na ideia vigente na época de que o desenvolvimento se dá através da revolução industrial e da mecanização das produções em detrimento das relações interpessoais.

Byrne, durante todo o tempo, defendeu esta ideia de interatividade entre as pessoas, ressaltou a importância dos programas de bike share (compartilhamento de bicicletas) pelas cidades onde passou e contou curiosidades sobre suas experiências. Para ele, os estacionamentos são espaços mortos nas cidades por serem opostos a uma área onde deveria ter música, comida, dança ou qualquer outra coisa.

Depois, ainda fez uma análise de como anda a cidade de São Paulo pelo que pôde vivenciar em sua estada. Após apontar algumas áreas do centro de São Paulo na projeção do telão, afirmou que “não em muito tempo, essas áreas poderão ser desejáveis de se viver em São Paulo”. Também criticou a poluição nas ruas da cidade: “Está suja, mas tem áreas bonitas. As cidades podem ser transformadas”, completou otimista o ativista.

Tamanha é a preocupação de David Byrne com as relações entre os habitantes de uma cidade, que emocionou a todos ao dizer que “ruas mais estreitas motivam as pessoas a atravessá-las para ver o que há do outro lado” e terminou sua palestra fazendo uma brincadeira um pouco machista. “Se vermos mais mulheres em bicicletas, mais homens seguirão.”

O fórum acabou e pode-se dizer que cumpriu a função a que veio. Mesmo com Eduardo Vasconcellos roubando a cena e a maioria das palmas da plateia, num âmbito geral, os presentes saíram contentes com a discussão toda e, com certeza, a repercussão não será das menores. Saiba como foi a apresentação dos temas de cada palestrante.

Arturo Alcorta

O jornalista Arturo Alcorta possui mais de 40 bicicletas.

O jornalista foi muito bem recebido pelo público, quase como um guru, e todos se puseram a tomar nota de suas indicações bibliográficas sobre o tema da mobilidade. Recomendou o vídeo “Ruas Sustentáveis de Nova Iorque” e sugerir que todos buscassem saber sobre Meli Malatesta, segundo ele, a responsável pela questão da bicicleta na cidade de São Paulo.

Fez seu discurso de forma concisa, começando pelo termo “legitimidade”. “Legitimidade é pensar em tudo e pensar em todos. É preciso construir pensando no que a cidade foi e no que ela é para podermos fazer um projeto com o que queremos e o que se tornará”, concluiu o colunista.

Para Arturo, o problema está no diálogo. “Existe falta de interesse e falta de discussão”, bradou, “se não soubermos questionar e criticar direito, não vamos construir um futuro”.

Marcelo Branco

A tal da possibilidade do exercício de compartilhamento de vias.

Após ser recebido com ressalvas pelos presentes, por representar, no âmbito da mobilidade urbana, um órgão abominado pela maioria da população – a CET -, Marcelo Branco se saiu muito bem, embora não tenha arrancado aplausos como os demais palestrantes. Ressaltou os programas de governo para a melhora na mobilidade, como a Ciclofaixa de Lazer e a recém estabelecida “Ciclorota” do Brooklin.

Vale explicar aqui que o descontentamento dos ciclistas com a Ciclofaixa se deve ao fato de a iniciativa legitimar a bicicleta como veículo de passeio – aos domingos, temporariamente. Para muitos, o procedimento é fazer os cidadãos verem a bicicleta já como meio de transporte e locomoção, e defende o compartilhamento de vias.

Marcelo é a favor da Ciclofaixa e, mesmo assim, concordou que “não resolve o problema, mas é um caminho para dar certo”. Para ele, a mudança deve ser gradual, pois não são todos que pensam desta maneira. Além disso, concluiu com uma bonita afirmação, que coçou a mão de todos, mas mesmo assim, não ganhou uma palma sequer. “A Ciclofaixa e a Ciclorota geram a possibilidade do exercício do compartilhamento de vias”, pregou Branco. De fato, é verdade.

Eduardo Vasconcellos

O "queridinho" do fórum Eduardo Vasconcellos.

O último convidado foi o mais inflamado dos quatro. Eduardo cresceu em São Paulo, na região do Itaim, e jogava bola nas ruas. Logo de início, uma bomba: “Se ficarmos ligados ao conceito de eficiência do transporte, amanhã de manhã fechamos um terço das linhas de ônibus da cidade”, imperou o consultor da ANTP.

Para Eduardo, é preciso medir quanto espaço o transporte ocupa na cidade e quanta energia ele gasta. Como exemplos, citou que um ônibus consome dez vezes menos espaço que um automóvel, e que uma família de quatro pessoas com dois carros ocupa 12 vezes mais espaço público do que uma família de mesmo tamanho sem carros. Isso para soltar a fala mais aplaudida da noite: “Construir vias é antidemocrático, é privatizar o espaço público. O desenvolvimento da cidade foi planejado pela elite da década de 30. As pessoas que precisam da bicicleta não conseguem chegar ao poder e mudar a agenda do governo. Toda a elite brasileira está dominada por essa ideia de desenvolvimento mecanizado. Nós temos que baixar a velocidade em toda a cidade. Temos que tirar 30% dos automóveis da cidade e aplicar o espaço que sobrar para ônibus, pedestre e bicicleta”. E a plateia foi ao delírio, tal qual um clássico do Campeonato Brasileiro.